Quanto cobrar pela consulta de fisioterapia: o RBPF e a sua conta
Como o RBPF do COFFITO funciona (valores em coeficientes, reajustados por ano), quais custos a fisioterapia tem e como chegar ao valor da sessão.
Por Hugo Vasconcelos
Atualizado em 30 de setembro de 2026 · 11 min de leitura
Fontes conferidas em 30/09/2026 · Como o manual é escrito
Quem atende em fisioterapia costuma ter uma vantagem sobre outras profissões da saúde na hora de precificar: o conselho federal publica um referencial que descreve e codifica os procedimentos da profissão e dá a cada um deles um valor de referência. Isso ajuda a falar de preço com mais base. Mas o referencial responde a uma pergunta diferente da que você tem: ele diz o valor de referência de um procedimento, e você precisa saber se o seu consultório fecha a conta cobrando aquilo.
Este texto explica como o RBPF funciona, como ler os valores sem se prender a eles, quais custos a fisioterapia tem que outras profissões não têm, e como chegar ao valor da consulta ou da sessão. O guia geral sobre quanto cobrar por sessão traz a fórmula completa para todas as profissões, e este aqui aplica a ideia à realidade da fisioterapia.
O que é o RBPF, do COFFITO
O Referencial Brasileiro de Procedimentos Fisioterapêuticos é uma ferramenta criada pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO) para ajudar o fisioterapeuta a precificar os seus serviços, considerando os valores ético-deontológicos necessários para garantir uma qualidade mínima de atendimento. Ele codifica e enumera os procedimentos fisioterapêuticos reconhecidos pelo conselho e dá a cada um deles um valor de referência.
O que interessa saber para usar o documento:
- Cada procedimento tem um código e um valor de referência. Você localiza o que faz, e não um preço genérico de "sessão de fisioterapia".
- O valor é expresso em coeficientes de valoração (CV). Em vez de listar um valor em reais que envelheceria a cada ano, o referencial diz quantos CV cada procedimento vale. Em reais, o valor de um procedimento sai do número de CV dele multiplicado pelo valor do CV em vigor.
- O valor do CV é reajustado todo ano. O COFFITO atualiza o CV com base em um índice de preços da área da saúde, o IPC/FIPE, setor saúde. A atualização mais recente que encontramos na página do COFFITO foi a da Resolução COFFITO 618, de 25 de junho de 2025, que trata da atualização do RBPF. Como o reajuste é anual, confira na página do conselho se há uma versão mais nova.
- É uma referência. O próprio conselho apresenta o RBPF como um instrumento de apoio à precificação, e não como uma tabela que fixa o que você pode cobrar.
Os documentos estão na página do RBPF no site do COFFITO e na resolução que os atualiza, com o anexo em que estão as tabelas. Não reproduzimos aqui os valores, porque o CV muda todo ano: uma cópia velha leva a um preço velho.
Como ler o RBPF sem se prender a ele
O referencial mostra o valor de um procedimento, mas o preço que você pratica depende de mais coisa. Alguns cuidados ao ler:
- Ache o procedimento certo. Uma avaliação e uma sessão de reabilitação têm valores diferentes, e uma atividade em grupo é outra coisa. Compare o que você faz, não o que "parece parecido".
- Use o CV do ano. Um valor calculado com o CV de dois anos atrás vai ficar defasado. Anote a data da edição que você usou.
- Lembre que o referencial não conhece o seu custo. A tabela é nacional, e o seu aluguel, o seu equipamento e a sua agenda são só seus.
- Use-o como comparação, e não como ponto de partida. A ordem que funciona é fazer a sua conta primeiro, e depois olhar o RBPF para ver onde o resultado se encaixa.
Se o seu preço mínimo, pela conta, fica abaixo do valor de referência, o consultório pode ser enxuto, ou o referencial pode não estar sendo praticado na sua região, e você decide onde se posicionar. Se fica acima, vale conferir os custos e a ocupação da agenda antes de subir o preço.
Os custos de um consultório de fisioterapia
A fisioterapia tem custos que pesam mais do que em atendimentos só de conversa. Ao montar a conta, passe por cada grupo:
- O espaço. Aluguel ou sublocação da sala, condomínio, água, luz e internet. Em fisioterapia, o espaço tende a ser maior por causa da maca e dos equipamentos, e o custo por hora de sala pesa no preço da sessão.
- Equipamentos e a sua reposição. Maca, aparelhos, materiais de exercício. Um equipamento comprado uma vez precisa entrar na conta como um custo mensal, dividindo o valor pelos meses de uso esperado, para que a troca futura já esteja guardada.
- Material de consumo e higiene. Lençol descartável, álcool, gel, materiais de apoio, lavagem. São pequenos por sessão, mas somam.
- Registro e anuidade. A anuidade do conselho regional e as taxas de registro, divididas por 12.
- Sistemas e administração. Agenda, prontuário, contador e divulgação.
- Deslocamento, no atendimento domiciliar. Quem atende na casa do paciente gasta tempo e dinheiro no trajeto: combustível ou transporte, estacionamento e as horas de agenda que o deslocamento ocupa. Ignorar esse tempo é um dos erros mais comuns de quem atende em domicílio.
- Impostos e taxas. O que você paga de imposto de renda ou de imposto no Simples Nacional, e as taxas de cartão ou de plataforma de pagamento.
Some tudo por mês. O que se paga uma vez por ano entra dividido por 12. O texto sobre gestão financeira do consultório mostra como manter esses números organizados.
A conta da consulta e da sessão
A fórmula é a mesma para todas as profissões de saúde:
preço mínimo = (o que você quer que sobre + custos do mês) ÷ (1 − imposto e taxas) ÷ sessões pagas por mês
Um exemplo, com números inventados só para mostrar a conta:
| Item (exemplo) | Valor |
|---|---|
| Quanto quer que sobre por mês | R$ 5.000 |
| Custos do consultório por mês | R$ 3.000 |
| Impostos e taxas | 10% |
| Horários por semana | 30 |
| Semanas de trabalho por ano | 46 |
| Faltas sem cobrança | 10% |
- Sessões marcadas por mês: 30 × 46 ÷ 12, cerca de 115.
- Sessões pagas por mês: 90% de 115, cerca de 104.
- Receita necessária: (5.000 + 3.000) ÷ 0,9, cerca de R$ 8.889.
- Preço mínimo: R$ 8.889 ÷ 104, cerca de R$ 85.
Os números são de exemplo e não representam o preço de ninguém. O que vale é a lógica: o preço nasce da agenda, do custo e do que você quer receber. Se você atende só parte da semana, ou se as faltas sobem, o preço mínimo sobe. Se o consultório enche, ele cai.
A duração da sessão entra na conta
Na fisioterapia, a duração do atendimento varia bastante conforme a técnica e o quadro do paciente. Duas sessões de tempo diferente não custam o mesmo. A forma mais simples de tratar isso é calcular o custo por hora e depois converter para a duração real de cada tipo de atendimento. Uma sessão de meia hora vale metade do custo da hora, mais o tempo de preparo e de registro que existe em toda sessão, seja curta ou longa.
Use a calculadora
Abaixo está a calculadora gratuita "Quanto cobrar por sessão", da Tivita. Ela faz a mesma conta, em formato de conversa, não pede cadastro e o resultado fica só no seu aparelho. Use os seus números, e depois compare o resultado com o RBPF.
Quanto cobrar por sessão
7 perguntas · o resultado fica só no seu aparelho
O resultado fica só no seu aparelho: nada do que você digita aqui é enviado.
Consulta de avaliação, sessões e pacotes
Muitos consultórios de fisioterapia separam a avaliação inicial das sessões de tratamento. A avaliação costuma ser mais longa, exige mais registro e define o plano, e por isso pode ter um valor próprio. Depois vêm as sessões, muitas vezes agrupadas em um plano de tratamento com um número de sessões previsto.
Cobrar por pacote pode dar previsibilidade ao caixa e comprometimento ao paciente, mas exige regras claras por escrito: quantas sessões, em que prazo, o que acontece com as não usadas, e como fica o pagamento se o tratamento terminar antes. Vale conferir o Código de Ética e as resoluções do COFFITO antes de definir como cobrar, já que a forma de cobrança também é matéria do conselho. O texto sobre baixa temporada no consultório fala mais dos pacotes.
Um pacote só funciona bem se o pagamento for simples para o paciente. Parcelar no cartão ou pagar por Pix, no dia certo, e sem que você precise lembrar cada um, faz a diferença entre um pacote que sustenta o caixa e um que vira cobrança.
Faltas e reposições
Cada falta sem aviso é uma hora de agenda sem receita, e em fisioterapia o problema é maior porque o tratamento depende de frequência: o paciente que falta atrasa a própria recuperação. Dois cuidados ajudam:
- Uma política de faltas escrita, combinada no início: o prazo para avisar, o que acontece com a sessão não desmarcada e como fica a reposição.
- Lembretes automáticos, que ajudam contra o esquecimento, uma das causas de falta sem má intenção.
O texto sobre como reduzir as faltas de pacientes detalha a rotina e a política.
Convênios, empresas e o valor de referência
Quando quem paga é um plano de saúde ou uma empresa, o valor não é combinado com o paciente, e sim negociado com quem contrata. O RBPF pode servir de apoio nessa conversa, como o que a própria categoria considera uma referência. Mas atenção ao que sobra: o valor recebido, menos o imposto, menos o prazo de pagamento e as sessões glosadas. O prazo de recebimento pesa no caixa, e o texto sobre capital de giro no consultório explica por quê.
Revisão anual do preço
O CV muda todo ano, e o seu preço também deveria ser revisto. Marque uma data fixa, por exemplo o começo do ano, e faça três coisas: atualize os custos, refaça a conta com a agenda real do ano que passou, e olhe o RBPF do ano. Avise os pacientes com antecedência e explique de forma simples que os custos subiram. Não há regra legal para o reajuste de uma consulta particular, mas há uma regra prática: quem avisa antes é menos questionado.
Para levar
- O RBPF, do COFFITO, dá a cada procedimento um valor em coeficientes de valoração (CV), e o CV é reajustado todo ano.
- É uma referência para precificar, e não uma obrigação nem um teto.
- Faça a sua conta primeiro: (o que sobra + custos) ÷ (1 − imposto e taxas) ÷ sessões pagas.
- Inclua na conta o espaço, o equipamento, o material e, no domicílio, o deslocamento.
- Pacotes e lembretes ajudam o caixa, desde que as regras estejam por escrito.
- Reveja o preço uma vez por ano, com o CV do ano em mãos.
Perguntas frequentes
O que é o RBPF?
É o Referencial Brasileiro de Procedimentos Fisioterapêuticos, do COFFITO. Ele codifica os procedimentos da fisioterapia e dá a cada um um valor de referência, expresso em coeficientes de valoração (CV), para ajudar o fisioterapeuta a precificar o seu serviço.
O valor do RBPF é obrigatório?
O conselho apresenta o RBPF como uma ferramenta de apoio à precificação, e não como uma tabela que fixa o que você pode cobrar. O seu preço precisa fechar com a sua conta, e o referencial serve para conferi-la.
Por que o texto não traz os valores em reais?
Porque o valor do CV é reajustado todo ano, e uma cópia velha leva a um preço velho. A versão em vigor está na página do RBPF, no site do COFFITO.
Como incluir o atendimento domiciliar no preço?
Some o custo do deslocamento (transporte, estacionamento) e, principalmente, as horas de agenda que o trajeto ocupa. Ignorar o tempo de deslocamento é um dos erros mais comuns de quem atende em domicílio.
Vale cobrar por pacote de sessões?
Pode dar previsibilidade ao caixa, desde que as regras estejam por escrito: número de sessões, prazo, o que acontece com as não usadas e a política de faltas. Confira as normas do COFFITO sobre a forma de cobrar.
Fontes
- [1]COFFITO: Referencial Brasileiro de Procedimentos Fisioterapêuticos (RBPF)
- [2]COFFITO: Resolução 618/2025 (atualização do RBPF)
- [3]Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO)
- [4]Sebrae: como definir o preço de venda e garantir lucro no seu negócio
Conteúdo informativo, não substitui a orientação do seu contador.
Quem escreveu

Escrito por
Hugo Vasconcelos · Sócio da TivitaSócio da Tivita, especialista em gestão de consultórios.
LinkedIn