Marketing para psicólogos: o que o CFP permite e o que veda
O que o Código de Ética e a Nota Técnica CFP 1/2022 dizem sobre divulgar o consultório: identificação, preço, depoimentos, redes sociais e indicação.
Por Hugo Vasconcelos
Atualizado em 1 de outubro de 2026 · 11 min de leitura
Fontes conferidas em 01/10/2026 · Como o manual é escrito
Muitos psicólogos travam na hora de divulgar o consultório. Parte é desconforto com a ideia de "se vender", parte é medo de esbarrar numa regra do conselho sem saber. O resultado comum é um perfil parado, que não diz para quem você atende nem como marcar.
A boa notícia é que as regras do Conselho Federal de Psicologia (CFP) são poucas e estão escritas. Elas estão no Código de Ética Profissional do Psicólogo, aprovado pela Resolução CFP 10/2005, e foram detalhadas para as redes sociais na Nota Técnica CFP 1/2022. Este texto resume o que cada uma diz, com a fonte ao lado, e termina com um roteiro para revisar o seu perfil. Ele não substitui a leitura das normas nem a orientação do seu conselho regional.
O que o CFP permite divulgar
A Nota Técnica CFP 1/2022 é clara: o psicólogo pode destacar na sua publicidade a formação, o público que atende, a abordagem teórica, a metodologia de trabalho e outras questões técnicas que caracterizam a sua atuação [2]. Também tem autonomia para escolher os meios de divulgação, avaliando os mais adequados eticamente ao seu trabalho e ao seu público [2].
Na prática, isso já é muito do que um bom perfil precisa:
- Para quem você atende. Adultos, adolescentes, casais, uma faixa de idade, uma demanda específica.
- Como você trabalha. A abordagem, o formato (presencial, on-line ou os dois), a duração e a frequência das sessões.
- Onde e quando. O bairro, a cidade, os horários e a forma de marcar.
- Quem você é. A formação e os títulos que você tem e pode comprovar.
O Código de Ética também deixa espaço para o conteúdo educativo: ao participar de atividade em veículos de comunicação, o psicólogo zela para que as informações disseminem o conhecimento sobre as atribuições, a base científica e o papel social da profissão [1]. Explicar como funciona a psicoterapia, desfazer mitos e mostrar o que esperar de uma primeira sessão são formas de divulgação que ajudam o público e você.
O que todo anúncio precisa ter
O artigo 20 do Código de Ética diz que o psicólogo, ao promover publicamente os seus serviços, por qualquer meio, informa o nome completo, o CRP e o número de registro [1].
A nota técnica atualiza esse ponto para as redes [2]:
- O nome pode ser o nome social, e o anúncio leva a titulação "psicóloga" ou "psicólogo", o CRP em que você está inscrito e o seu número.
- Apelidos são permitidos, desde que acompanhados desses dados.
- Artes e logomarca no perfil são permitidas, desde que vinculadas ao nome completo ou social e ao número no CRP.
O lugar mais simples para isso é a bio do perfil, que aparece em todo post.
O que o Código de Ética veda
O mesmo artigo 20 lista o que o psicólogo não faz ao divulgar o seu trabalho [1]:
- Fazer referência a títulos ou qualificações que não possui.
- Divulgar qualificações, atividades e técnicas que não sejam reconhecidas ou regulamentadas pela profissão.
- Usar o preço do serviço como forma de propaganda.
- Fazer previsão taxativa de resultados.
- Fazer autopromoção em detrimento de outros profissionais.
- Propor atividades que sejam atribuições privativas de outras categorias.
- Fazer divulgação sensacionalista.
E o artigo 2º acrescenta vedações que valem para a divulgação também, como induzir qualquer pessoa a recorrer aos seus serviços e receber ou pagar remuneração ou porcentagem por encaminhamento [1]. Este último ponto importa para quem pensa em "programa de indicação" com desconto ou pagamento a quem indica: pela regra do CFP, isso não cabe.
O preço: a regra que mais pega
O preço é onde a regra da psicologia é mais restrita que a de outras profissões. O Código de Ética veda usar o preço como forma de propaganda [1], e a nota técnica explica o que isso quer dizer na prática: o psicólogo deve se abster de termos como "preço social", "atendimento social", "desconto", "pacote promocional", "valor acessível" e similares, e não pode usar cupons promocionais nem sorteios [2].
O que continua permitido, segundo a mesma nota: divulgar convênios com instituições, universidades, faculdades e clínicas [2].
E há um ponto que é dever, e não restrição: o Código manda estipular o valor de acordo com as características da atividade e comunicá-lo ao paciente antes do início do trabalho [1]. Ou seja, o valor não vai para o post, mas vai para a conversa com quem procura você. O texto sobre a tabela de honorários do CFP e o sobre quanto cobrar por sessão ajudam a chegar ao número.
Combinar por escrito evita mal-entendido sobre valor, faltas e forma de pagamento. Na loja da Tivita, o Contrato Terapêutico manda o contrato ao paciente por um link no WhatsApp, para ele assinar no celular.
A nota também trata do trabalho voluntário: divulgá-lo não é proibido, mas ele só deve ser oferecido quando você puder garantir a continuidade e a qualidade, e é inadequado usá-lo para captar clientes [2].
Depoimentos, fotos e casos
O sigilo é o centro da profissão, e a nota técnica é direta sobre isso. Na publicidade, o psicólogo não usa diagnóstico, análise de caso, aconselhamento ou orientação que identifique a pessoa atendida [2]. O Código de Ética veda realizar diagnósticos, divulgar procedimentos ou apresentar resultados em meios de comunicação de forma a expor pessoas, grupos ou organizações [1].
Sobre depoimentos e fotos de pacientes, a nota diz que, com consentimento expresso e por escrito, eles são permitidos, mas não recomendados, pelo risco de expor a pessoa atendida, em especial crianças e adolescentes [2].
Além do Código, há a Lei Geral de Proteção de Dados: dado referente à saúde é dado pessoal sensível, e o tratamento dele exige uma das bases da lei, como o consentimento específico e destacado [6].
E um cuidado que vale para avaliações em plataformas como o Google: elas são do paciente, e não suas. O Google proíbe oferecer desconto, brinde ou serviço gratuito em troca de avaliação [5]. Pedir, sem oferecer nada em troca, é outra coisa.
Redes sociais na prática
A nota técnica traz alguns cuidados específicos para as redes [2]:
- Perfil pessoal ou profissional. Se a divulgação for feita no perfil pessoal, cuidado para não misturar as coisas e confundir quem lê. Muita gente resolve com um perfil só para o consultório.
- O que se publica fica. O conteúdo atinge um público amplo e tem alcance indeterminado. Antes de publicar, leia como um paciente leria.
- Quem faz o seu marketing não leva a sua responsabilidade. Mesmo quando a divulgação é feita por agência, designer ou plataforma de atendimento on-line, cabe ao psicólogo conferir se o conteúdo segue as regras, e ele pode ser responsabilizado por publicidade indevida.
- Plataformas coletivas: a nota orienta que elas apresentem os nomes dos psicólogos e o número de inscrição no CRP.
- Produtos e serviços seguem também o Código de Defesa do Consumidor, que proíbe publicidade enganosa ou abusiva [7].
Onde ser encontrado
Divulgar é metade do caminho. A outra metade é estar onde o paciente procura.
O perfil no Google. Criar ou reivindicar o Perfil da Empresa no Google não tem custo [4]. Com endereço, horário e forma de contato certos, é por ele que muita gente chega a um consultório do bairro.
Plataformas de busca de profissionais. Há várias, com regras e preços diferentes. O texto Doctoralia vale a pena? compara as principais com a mesma régua. Lembre que as regras do CFP valem dentro da plataforma também, inclusive a do preço.
Atendimento on-line. A Resolução CFP 9/2024, que regula o exercício da psicologia mediado por tecnologias digitais, entrou em vigor em agosto de 2024, revogou as resoluções anteriores e acabou com a exigência de cadastro prévio na plataforma e-Psi para atender on-line [3]. Isso amplia o alcance de quem atende a distância, com as responsabilidades que a resolução descreve, como o sigilo e a segurança dos registros.
Indicação. Continua sendo uma das formas mais fortes, e a regra é a do artigo 2º: sem pagar nem receber por encaminhamento [1]. O que funciona é a rede: colegas de outras áreas que conhecem o seu trabalho e sabem para quem você atende.
Um aviso, já que o cartão abaixo é de um produto nosso: o EuMarco.ai é feito pela Tivita, que publica este Manual.
Um roteiro para revisar o seu perfil hoje
Com o Código de Ética e a Nota Técnica 1/2022 abertos ao lado:
- A bio tem o seu nome completo ou social, "psicóloga" ou "psicólogo", o CRP e o número?
- Os títulos citados são os que você pode comprovar?
- Há algum post com preço, "desconto", "valor acessível", "pacote" ou sorteio? Tire.
- Algum texto promete resultado, mesmo de forma sutil?
- Há depoimento, foto ou caso que possa identificar alguém que você atende?
- Quem cuida das suas redes conhece essas regras?
- Está claro para quem você atende, como trabalha e como marcar? Se não está, o perfil está seguro, mas não está trabalhando por você.
Para levar
- Divulgar o consultório é permitido e esperado: mostre formação, público, abordagem e forma de trabalho.
- Todo anúncio traz nome completo ou social, a profissão e o número no CRP.
- O preço não vai para a propaganda, mas é combinado com o paciente antes de começar.
- Nada de prometer resultado, de sensacionalismo, de autopromoção contra colegas, nem de pagar ou receber por indicação.
- Depoimentos e fotos de pacientes: só com consentimento por escrito, e o CFP não recomenda.
Perguntas frequentes
Psicólogo pode fazer propaganda?
Pode. O Código de Ética permite promover os serviços por qualquer meio, inclusive redes sociais, desde que o anúncio traga o nome completo, a profissão e o número no CRP, e que não use o preço como propaganda, não prometa resultado e não seja sensacionalista.
Psicólogo pode divulgar o valor da sessão no Instagram?
Não como propaganda. O Código de Ética veda usar o preço do serviço como forma de propaganda, e a Nota Técnica CFP 1/2022 orienta a não usar termos como desconto, preço social ou valor acessível, nem cupons e sorteios. O valor é combinado com o paciente antes de começar.
Psicólogo pode postar depoimento de paciente?
Segundo a Nota Técnica CFP 1/2022, só com consentimento expresso e por escrito, e mesmo assim não é recomendado, pelo risco de expor a pessoa atendida, em especial crianças e adolescentes. Nada que identifique quem você atende.
O que precisa constar no perfil profissional do psicólogo?
O nome completo ou o nome social, a titulação psicóloga ou psicólogo, o CRP em que você está inscrito e o seu número. Apelido e logomarca são permitidos, desde que acompanhados desses dados.
Ainda é preciso o cadastro no e-Psi para atender on-line?
Não. A Resolução CFP 9/2024, em vigor desde agosto de 2024, revogou as normas anteriores sobre atendimento mediado por tecnologia e acabou com a exigência de cadastro prévio no e-Psi. As regras de sigilo e de segurança dos registros continuam valendo.
Fontes
- [1]CFP: Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP 10/2005)
- [2]CFP: Nota Técnica 1/2022, uso profissional das redes sociais, publicidade e cuidados éticos
- [3]CRP-14 (MS): Resolução CFP 9/2024 regula o uso de tecnologias digitais e revoga o cadastro no e-Psi
- [4]Google: adicionar ou reivindicar o Perfil da Empresa
- [5]Google Maps: política de conteúdo de usuários (avaliações e incentivos)
- [6]Lei 13.709/2018 (Lei Geral de Proteção de Dados), no Planalto
- [7]Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/1990), no Planalto
Conteúdo informativo, não substitui a orientação do seu contador.
Quem escreveu

Escrito por
Hugo Vasconcelos · Sócio da TivitaSócio da Tivita, especialista em gestão de consultórios.
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