Prompts para psicólogas: cinco usos da IA que não expõem o paciente
Cinco prompts prontos para psicólogas, de prontuário a Instagram, preço e estudo, e o que o guia do CFP sobre IA permite e pede cuidado.
Por Claudio Franco
Atualizado em 1 de outubro de 2026 · 10 min de leitura
Fontes conferidas em 01/10/2026 · Como o manual é escrito
Quem atende em consultório próprio escreve o tempo todo: a evolução da sessão, o contrato, a mensagem sobre a falta, o post da semana, o relatório que a escola pediu. A inteligência artificial generativa promete aliviar essa parte, e cumpre em boa medida, desde que você saiba o que pedir e, principalmente, o que não colocar dentro dela.
Este texto reúne o que o Conselho Federal de Psicologia já disse sobre IA, mostra como montar um pedido que funciona e traz cinco prompts comentados, um para cada tarefa do consultório. Todos estão na biblioteca de prompts, filtrada para psicologia, com o botão de copiar e de abrir direto no ChatGPT, no Claude, no Perplexity ou no Gemini.
O que o CFP diz sobre IA
Até 30 de setembro de 2026, o CFP não publicou resolução sobre inteligência artificial. Em julho de 2025, divulgou um posicionamento sobre IA na prática psicológica, no qual diz que não se trata de negar o avanço tecnológico, mas de garantir que a sua implementação esteja alinhada aos princípios da psicologia [6]. Em dezembro de 2025, publicou o guia "Inteligência Artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável", que se apresenta como um conjunto de orientações gerais [1].
O guia não tem força de resolução, mas é a leitura do conselho sobre o assunto, e conversa com o Código de Ética, que tem. Os pontos que mais importam para o consultório:
- Dado de paciente. À pergunta "posso inserir dados de pacientes?", o guia responde: "Evite". Se for absolutamente necessário, anonimizar rigorosamente, usar soluções com contratos de confidencialidade, registrar o consentimento e não inserir "prontuários, nomes e itens identificáveis", desativando o treinamento com os seus dados [1].
- Relatórios e laudos. "Como rascunho é possível", com revisão integral, autoria assumida e transparência de que a IA foi ferramenta de apoio. A responsabilidade pelo documento é sempre da psicóloga [1].
- Tarefas administrativas. Agendamento e lembretes, que não se relacionam com questões específicas da psicologia, podem usar IA "sem restrições". Já a sistematização de prontuários e de dados clínicos pede a devida preocupação com armazenamento e sigilo [1].
- Psicoterapia. Assistentes virtuais e chatbots não devem conduzir psicoterapia de forma autônoma, e gravar e transcrever um atendimento com IA exige o consentimento informado da pessoa atendida [1].
Por trás de tudo, está o artigo 9º do Código de Ética: é dever da psicóloga respeitar o sigilo profissional, protegendo a intimidade das pessoas a que tem acesso no exercício profissional [2]. O sigilo não tem exceção para ferramenta nova.
Como montar um prompt que funciona
Um prompt é o pedido que você escreve para a IA. Os bons têm quase sempre as mesmas partes:
- A tarefa, com um verbo claro: organize, revise, escreva, calcule, explique.
- O material, quando há, num lugar marcado: "Anotações:", "Contrato:".
- Os limites: o que a IA não pode fazer. "Não invente nada que não esteja nas anotações" é a frase mais importante de qualquer prompt clínico.
- O formato: tópicos, uma tabela, até 150 palavras, linguagem simples.
- Os colchetes: tudo o que muda de um uso para outro fica entre colchetes, como [tema] e [valor], e é a única parte que você troca.
E uma regra que vale antes de todas: se o material tem algo que identifica o paciente, ele não está pronto para entrar. Os prompts da biblioteca que pedem anotações já dizem, dentro do colchete, o que deixar de fora.
Cinco prompts para o consultório de psicologia
Os cinco abaixo cobrem as cinco tarefas da biblioteca: prontuário, documentos, divulgação, finanças e estudo. Cada um vem com o motivo de estar escrito daquele jeito.
1. Evolução de sessão, sem identificar o paciente
Organize as anotações abaixo numa evolução de sessão com: tema trabalhado, intervenções, observações e plano para a próxima sessão. Não invente nada que não esteja nas anotações. Anotações: [cole aqui, sem nome, iniciais, idade exata, cidade, datas ou qualquer dado que identifique o paciente]
Este é o prompt que mais pede cuidado, e por isso vem primeiro. A estrutura (tema, intervenções, observações, plano) é só uma sugestão: troque pela que você já usa. A frase "não invente" impede que a IA complete lacunas com o que parece plausível. E o colchete lembra o que fica fora, inclusive o detalhe de vida que reconhece a pessoa mesmo sem o nome. O resultado é rascunho: o que vai para o registro é o que você leu e corrigiu. Se a anotação não pode ficar anônima sem perder o sentido, não cole.
2. Contrato terapêutico claro sobre faltas e pagamento
Revise o contrato terapêutico abaixo para deixar claras, em linguagem simples, as regras de falta, remarcação, férias e pagamento. Aponte o que estiver ambíguo e não acrescente cláusula nova sem me dizer. Contrato: [cole aqui o seu modelo, sem dados de paciente]
Aqui o material é o seu modelo, sem o nome de ninguém. A IA é boa em achar frases ambíguas, como "faltas serão cobradas" sem dizer com quanta antecedência o aviso livra a cobrança. O limite "não acrescente cláusula nova sem me dizer" evita que ela invente uma regra que você nunca combinou. Antes de usar o texto, confira as regras de falta e de cobrança com o Código de Ética e com o seu conselho regional. O texto sobre faltas de pacientes traz o que considerar numa política de cancelamento.
O contrato é só um dos papéis que tomam tempo entre uma sessão e outra.
3. Post de Instagram dentro do Código de Ética
Escreva um post de Instagram para psicólogas sobre [tema], em linguagem simples. Não prometa resultado, não use o preço como propaganda, não faça sensacionalismo e não use depoimento de paciente. Termine com um convite para agendar.
Os três primeiros limites saem do artigo 20 do Código de Ética, que diz que a psicóloga, ao promover publicamente os seus serviços, não usa o preço como forma de propaganda, não faz previsão taxativa de resultados e não faz divulgação sensacionalista [2]. O mesmo artigo pede que a divulgação informe o nome completo e o número de registro no CRP, e que se refira apenas a títulos e qualificações que a profissional possui: confira as duas coisas no texto final, porque a IA não sabe quais são os seus.
4. O preço mínimo da sessão
Meus custos do mês são [valores], quero que sobre [valor] e atendo [n] sessões por semana, com [x]% de faltas. Calcule o preço mínimo da sessão, mostre a conta passo a passo e diga quantas sessões preciso para pagar os custos.
Nenhum dado de paciente, só os seus números. O "mostre a conta passo a passo" é o que permite conferir, e conferir é obrigatório: a IA pode errar uma conta simples e apresentar o resultado com segurança. Para refazer sem IA, o texto sobre quanto cobrar por sessão tem a conta e uma calculadora, e o de tabela de honorários da psicologia explica como usar a referência do CFP.
5. Estudar uma abordagem com as referências para conferir
Estou estudando [abordagem] aplicada a [tema, ex.: ansiedade em adultos]. Explique os conceitos centrais, as técnicas mais usadas e as principais críticas, e indique livros e autores de referência para eu conferir. Se não tiver certeza de uma referência, diga que não tem.
Pedir as críticas evita um resumo que só elogia. Pedir as referências e a admissão de incerteza ajuda, mas não resolve: a IA pode inventar livro, autor e citação com aparência perfeita. Use o resumo para saber o que procurar, e leia a fonte.
Documentos psicológicos e a IA
Declaração, atestado, relatório, laudo e parecer seguem a Resolução CFP 6/2019, que traz as regras para a elaboração dos documentos escritos pela psicóloga [3]. E o registro dos atendimentos é obrigatório pela Resolução CFP 1/2009 [4].
O guia do CFP admite a IA na escrita de um relatório como rascunho [1]. Na prática, isso quer dizer que o que você colar para a IA trabalhar precisa estar sem identificação, que a estrutura e o raciocínio do documento são seus, e que você reescreve o que for preciso antes de assinar. Um documento psicológico é um ato profissional, não um texto bem escrito.
A LGPD reforça o cuidado: dado referente à saúde é dado pessoal sensível [5]. O texto sobre IA no prontuário e a LGPD mostra o que a lei diz sobre colar esse dado numa ferramenta de terceiro.
O que não pedir à IA
Alguns pedidos parecem práticos e não são:
- Hipótese diagnóstica a partir do relato de um paciente. Além do dado sensível, é transferir para a ferramenta o raciocínio que o guia do CFP diz precisar de mediação profissional.
- Conduzir o atendimento. Chatbot não conduz psicoterapia de forma autônoma, e indicar um para o paciente usar em crise não substitui a rede de cuidado.
- Escrever o laudo do zero. A IA não avaliou ninguém. O que ela escreve sem o seu material é invenção bem formatada.
- Qualquer coisa com nome, iniciais, documento, contato ou detalhe que reconheça a pessoa. Na dúvida, não cole.
Perguntas frequentes
O CFP permite usar ChatGPT?
O CFP não tem resolução sobre IA. O guia que publicou em 2025 trata a IA como ferramenta de apoio: diz para evitar inserir dados de pacientes e admite o uso em relatórios só como rascunho, com revisão integral e autoria assumida.
Posso usar IA para escrever um relatório psicológico?
Como rascunho, segundo o guia do CFP, com revisão integral, autoria assumida e transparência sobre o uso. O documento segue a Resolução CFP 6/2019, e a responsabilidade é sempre da psicóloga que assina.
O que não colocar num prompt?
Nada que identifique o paciente: nome, iniciais, documento, contato, endereço, datas e detalhes de vida que reconheçam a pessoa. Na dúvida, não cole.
Onde encontro os prompts prontos?
Na biblioteca de prompts do Manual do Consultório, filtrada para psicologia, com o botão de copiar e de abrir direto no ChatGPT, no Claude, no Perplexity ou no Gemini.
Fontes
- [1]CFP: Inteligência Artificial na Psicologia, guia para uma prática ética e responsável (2025)
- [2]CFP: Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP 10/2005)
- [3]CFP: Resolução 6/2019 (documentos escritos), edição comentada
- [4]CFP: Resolução 1/2009 (registro documental dos serviços psicológicos)
- [5]Lei 13.709/2018 (Lei Geral de Proteção de Dados), no Planalto
- [6]CFP: posicionamento sobre inteligência artificial na prática psicológica (julho de 2025)
Conteúdo informativo, não substitui a orientação do seu contador.
Quem escreveu

Escrito por
Claudio Franco · CEO da TivitaCEO da Tivita, especialista em gestão e tecnologia, formado em Ciência da Computação.
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