Manual de psiquiatria · Capítulo 1
Quanto ganha um psiquiatra com consultório próprio: a conta
Não é uma média salarial: é a conta da agenda do psiquiatra, com a primeira consulta longa, os retornos que se cobram e o ritmo da receita controlada.
Por Hugo Vasconcelos
Atualizado em 1 de outubro de 2026 · 5 min de leitura
Fontes conferidas em 01/10/2026 · Como o manual é escrito
Uma média de salário mistura residência, plantão, emprego em hospital e consultório, e não diz quanto rende a sua semana. Este capítulo monta a conta do consultório de psiquiatria. A conta geral do médico, com o retorno de exames e a mistura de particular e convênio, está no capítulo sobre quanto ganha um médico.
A primeira consulta ocupa mais agenda
A Resolução CFM 2.057/2013 torna a anamnese obrigatória também no consultório e traz o roteiro do seu registro: a história da doença atual, a história familiar com o registro de doença mental na família, a história pessoal desde a gestação e o exame do estado mental, com senso-percepção, representação, conceito, juízo e raciocínio, atenção, consciência, memória, afetividade, volição e linguagem [3]. No consultório, sem indicação de internação, o registro pode ficar nos itens imprescindíveis à boa prática diagnóstica e à conduta [3]. Ainda assim, é uma primeira consulta extensa por natureza.
Quanto tempo ela dura é seu: o Código de Ética Médica garante ao médico decidir o tempo dedicado ao paciente, sem que o acúmulo de consultas prejudique o trabalho (cap. II, VIII) [1]. Na conta, isso pede separar dois tipos de horário:
- Primeira consulta, mais longa, que entra na agenda em menor número.
- Consulta de acompanhamento, mais curta, que é a maior parte da semana de quem já tem pacientes em tratamento.
Um exemplo só para mostrar a conta, sem valor de referência: se a sua primeira consulta dura o dobro do acompanhamento, cada primeira consulta ocupa o lugar de duas de acompanhamento. Abrir mais vagas para pacientes novos reduz as consultas da semana, e o preço da primeira consulta precisa levar isso em conta.
Quais retornos entram no faturamento
A Resolução CFM 1.958/2010 diz que a volta para mostrar exames pedidos na consulta é parte dela e não gera nova cobrança (art. 1º, § 1º) [2]. Mas ela também diz que, nas doenças que exigem tratamento prolongado, com reavaliações e até modificações terapêuticas, as consultas podem ser cobradas, a critério do médico assistente (art. 3º) [2]. Quem identifica cada caso é você, no atendimento (art. 4º) [2].
Na psiquiatria, a consulta de acompanhamento que reavalia o quadro e ajusta ou troca o medicamento cabe no art. 3º, e pode entrar no faturamento a seu critério. O retorno só para ver um exame pedido, não. Separe os dois na agenda, e diga ao paciente, antes da primeira consulta, como cada um é cobrado.
A receita controlada marca o ritmo das consultas
A Portaria 344/1998 chama de psicotrópicas as substâncias das listas A3, B1 e B2, põe outras sujeitas a controle especial na lista C1, e cada tipo de receita tem um teto de tratamento [4]:
| Receita | Teto por receita, fora as ampolas |
|---|---|
| Notificação de Receita A, amarela | 30 dias de tratamento (art. 43) |
| Notificação de Receita B, azul | 60 dias de tratamento (art. 46) |
| Receita de Controle Especial, lista C1 | 60 dias; antiparkinsonianos e anticonvulsivantes, até 6 meses (art. 59) |
Acima desses tetos, a receita vai com uma justificativa que traz o CID ou o diagnóstico e a posologia (arts. 43, 46 e 60) [4]. Na prática, sem essa justificativa, quem toma um medicamento dessas listas precisa de uma receita nova a cada intervalo desses, e a agenda de acompanhamento segue esse ritmo. O capítulo sobre a receita de controle especial explica cada uma.
O presencial no tratamento longo
A teleconsulta ajuda a encaixar acompanhamentos, mas a Resolução CFM 2.314/2022 pede consulta presencial com o médico assistente, em intervalos de no máximo 180 dias, no atendimento de doença crônica ou que exige acompanhamento por longo tempo (art. 6º, § 2º) [5]. Reserve horário presencial para esses pacientes, mesmo que a maior parte do seguimento seja online. O capítulo sobre teleconsulta em psiquiatria traz as outras regras.
Os custos que são da psiquiatria
Além dos custos de todo consultório, entram dois que vêm da receita controlada:
- A impressão das notificações. A Notificação de Receita B é impressa às suas expensas, em gráfica, no modelo publicado pela Anvisa (art. 45) [4], e a numeração é pedida antes à vigilância sanitária [6].
- O certificado digital. A receita eletrônica de medicamento controlado só vale com assinatura qualificada, do padrão ICP-Brasil; a assinatura do gov.br não serve para ela [6].
Com a agenda separada em primeiras consultas e acompanhamentos, a calculadora de quantas consultas atender faz a conta a partir da renda que você quer, e o simulador de carnê-leão mostra o imposto de quem atende pelo CPF.
Fontes
- [1]CFM: Código de Ética Médica (Resolução CFM 2.217/2018, modificada pelas 2.222/2018 e 2.226/2019)
- [2]CFM: Resolução CFM 1.958/2010, o ato da consulta médica e o retorno
- [3]CFM: Resolução CFM 2.057/2013, normas da assistência psiquiátrica e manual dos serviços em psiquiatria (modificada pelas 2.153/2016 e 2.165/2017)
- [4]Anvisa: Portaria SVS/MS 344/1998, texto consolidado com as mudanças da RDC 1.000/2025 (AnvisaLegis)
- [5]CFM: Resolução CFM 2.314/2022, telemedicina
- [6]Anvisa: perguntas e respostas da RDC 1.000/2025, receituários físicos e eletrônicos
Conteúdo informativo, não substitui a orientação do seu contador. Para as regras da profissão, a última palavra é a do seu conselho regional.

Escrito por
Hugo Vasconcelos · Sócio da TivitaSócio da Tivita, especialista em gestão de consultórios.
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